Povo de Bahá: O Báb e Bahá’u’lláh: Turbilhão e Epifania.


Por John Hatcher.

Entre a Sua declaração em 1844 e a Sua execução em 1850, a vida do Báb e da comunidade Bábi foi um turbilhão de actividades e, pouco depois, um fogo incontrolável de perseguições, torturas e martírios.

A mensagem do Báb espalhou-se rapidamente entre os persas. Milhares e milhares de pessoas abraçaram-na em êxtase, e a Sua conversão criou receio e apreensão entre as elites governamentais e as lideranças islâmicas, que responderam com uma repressão cruel e perseguições mortais.

Em 1847, o Báb – que tinha estado várias vezes sob prisão domiciliar desde o Seu retorno da peregrinação a Meca e Medina em 1845 – foi preso na remota fortaleza montanhosa de Mah-Ku, no noroeste de Azerbaijão persa.

O Báb esteve ali preso durante nove meses, e posteriormente foi enviado para outra prisão, na fortaleza de Chihriq, também no Azerbaijão, onde permaneceu durante os dois anos. Em 9 de Julho de 1850, foi executado por um pelotão de fuzilamento na praça do quartel de Tabriz em circunstâncias milagrosas.

Mas durante os seis anos do ministério do Báb, Bahá’u’lláh, por ordem do Báb, guiou firmemente a Fé Bábi até onde foi capaz.

A Fé Bábi espalhou-se com uma incrível rapidez por toda a Pérsia, fazendo com que a monarquia, que estava estreitamente alinhada com os poderes do clero, sentisse uma necessidade frenética de reagir rápida e impiedosamente para destruir a Fé. Ao incitar o tumulto entre os cidadãos, os mulás encorajaram ataques às casas dos Bábis. Durante dois anos, entre 1848 e 1849, cerca de vinte mil Bábis foram massacrados, muitas vezes de formas perfeitamente atrozes. Os relatos chocantes destes ataques e a coragem e o heroísmo demonstrados por aqueles Bábis – que preferiram a morte em vez de renunciarem às suas crenças – encontram-se narrados detalhadamente em numerosas fontes.

Os aspectos mais significativos do papel de Bahá’u’lláh nestes acontecimentos são dignos de nota; a complexidade do Seu envolvimento tem, provavelmente, o melhor relato no livro Bahá’u’lláh: The King of Glory, de Hasan Balyuzi, livro que actualmente é a mais completa biografia de Bahá’u’lláh. No verão de 1848, Bahá’u’lláh convocou uma conferência de líderes e seguidores do Báb, aparentemente para consultar sobre como ajudar a retirar o Báb da prisão. Na realidade, a conferência teve um propósito mais subtil e profundo – proclamar aos Bábis que a revelação do Báb não foi uma tentativa de reforma ou purificação do Islão, mas uma nova revelação independente de Deus.

Em resumo: se continuassem a ser seguidores do Báb, não deveriam considerar-se Muçulmanos, mas sim Bábis, e deveriam reconhecer o Báb como dotado de uma condição espiritual equivalente à de Muhammad.

Num gesto simbólico nesta ocasião, todos receberam novos nomes ou títulos. Nessa ocasião, Mirza Husayn-Ali assumiu o título de “Bahá’u’lláh”. Esta importante conferência também desencadeou uma série de acontecimentos que, ao longo do ano seguinte, resultariam nos mais graves ataques às comunidades Bábis. O mais significativo foram o cerco das tropas governamentais ao forte de Shaykh Tabarsi, perto de Barfurush, ocorrido entre Outubro de 1848 e Maio de 1849; a revolta de Zanjan, que durou de 13 de Maio de 1850 a Janeiro de 1851; e a revolta de Nayriz, que começou em 27 de Maio de 1850 e terminou em 21 de Junho daquele ano. Em Julho de 1850, o próprio Báb foi executado.

À medida que estas perseguições brutais alastravam pela Pérsia, quase todos os líderes Bábis iam sendo executados. Perturbados pelo massacre de amigos e familiares, dois jovens Bábis decidiram assassinar Xá. Apesar do seu plano imprudente ter sido fortemente desencorajado por Bahá’u’lláh, os dois estiveram próximos de conseguir concretizar o seu propósito, mas a sua arma falhou. Foram rapidamente capturados, torturados e executados.

Embora tenham confessado que não tinham cúmplices, o turbilhão de perseguições ganhou mais uma vez força em toda a Pérsia e, o próprio Bahá’u’lláh, que era um dos poucos líderes Bábis ilesos, foi preso. Apesar da Sua condição de nobre e do Seu carácter respeitado, foi colocado na infame prisão subterrânea de Teerão, o Siyah-Chal, vulgarmente conhecida como o “Poço Negro”. Tratava-se de uma masmorra subterrânea, anteriormente usada como cisterna de água, que agora era uma prisão sem luz nem água. Com o pescoço acorrentado e os pés presos, Bahá’u’lláh foi amarrado juntamente com mais de oitenta prisioneiros, dos quais trinta e oito eram figuras destacadas na comunidade Bábi. O próprio Bahá’u’lláh faz uma descrição na sua Epístola ao Filho do Lobo, sobre as terríveis condições da prisão:


Após a Nossa chegada fomos primeiro levados ao longo de um corredor muito escuro, do qual descemos três íngremes lanços de escadas até ao local de reclusão que Nos foi atribuído. A masmorra estava envolta numa densa escuridão e os Nossos companheiros de cela contavam-se em cerca de cento e cinquenta almas: ladrões, assassinos e salteadores de estrada. Embora apinhado, não havia outra saída salvo a passagem por onde entrámos. Nenhuma pena pode retratar aquele local, nem língua alguma descrever o seu cheiro repugnante. A maioria daqueles homens não tinha roupas nem cama onde se deitar. Só Deus sabe o que Nos sucedeu naquele lugar terrivelmente nauseabundo e sombrio! (Epístola ao Filho do Lobo, ¶32)

Diariamente, um prisioneiro Bábi era escolhido, levado para o pátio e executado. Conforme narrado no livro The Dawn-Breakers (Os Rompedores da Alvorada), havia um ar de expectativa e celebração por parte dos outros prisioneiros Bábis cada vez que um era levado, pois Bahá’u’lláh “confortá-lo-ia com a certeza de uma vida eterna no mundo além”:


Logo após o martírio de cada um destes companheiros, éramos informados pelo carrasco, que se tinha tornado nosso amigo, das circunstâncias da morte da sua vítima, e da alegria com que suportara os seus sofrimentos até ao último momento.

Claramente, era apenas uma questão de tempo até que o próprio Bahá’u’lláh fosse executado.

No entanto, foi durante este mesmo período na prisão que Bahá’u’lláh recebeu o sinal de que tinha chegado o momento de iniciar a Sua própria revelação. Uma noite, num sonho, o Espírito Santo personificado na forma da Virgem Celestial surgiu-Lhe numa visão e assegurou-Lhe que Ele seria posto em liberdade, que libertaria uma revelação que iria superar todos os obstáculos, e que, com o tempo, a Sua revelação transformaria toda a civilização humana na Terra. As suas próprias palavras, registadas na sua epístola ao Xá Nasiri’d-Din, referindo este ponto de viragem, descrevem essa experiência incrível:


Ó Rei! Eu era um homem como os outros, adormecido no Meu leito, quando eis que as brisas do Todo-Glorioso foram sopradas sobre Mim, e Me deram a conhecer tudo o que existia. Isto não provem de Mim, mas daquele que é o Omnipotente, o Sapientíssimo. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso sucedeu-Me aquilo que fez fluir as lágrimas de todos os homens de compreensão. A erudição corrente entre os homens não a estudei; nas suas escolas não entrei. Pergunta na cidade onde residi, para que possas saber que não sou dos que falam falsamente. Esta é apenas uma folha que os ventos da vontade do teu Senhor, o Omnipotente, o Todo-Louvado, agitaram. (Súriy-i-Haykal, ¶192)

Transformação ou Revelação?

Tendo revisto brevemente alguns paralelismos na vida dos Manifestantes, centrando a nossa atenção na Sua assunção de títulos associados à declaração pública da Sua condição e missão, podemos agora abordar uma questão mais crucial, relativa à Sua ontologia, isto é, a natureza distinta das Suas condições ou seres. No que parecem ser momentos decisivos na vida dos profetas, será que eles passam por alguma transformação na Sua natureza essencial, ou revelam subitamente uma ascendência espiritual que estava oculta?

Apenas alguns destes pontos críticos de mudança são descritos em vários Livros Sagrados com muitos detalhes ou autenticidade verificável; no entanto, o ponto de partida de cada revelação parece resultar de um tipo de experiência semelhante.

Mas como os termos usados para descrever esses eventos são ambíguos, resta-nos resolver exactamente o mesmo problema que os clérigos enfrentaram no Concílio de Niceia: serão os mensageiros, profetas e manifestantes seres humanos comuns que são transformados por Deus em representantes, através dos quais Ele consegue transmitir a Sua vontade à humanidade – ou são estes Seres encarnações divinas da essência de Deus, que são capazes de assumir a forma humana? Ou existe uma terceira alternativa? Poderiam os manifestantes não ser seres humanos comuns, mas uma classe distinta de seres, emissários enviados do reino metafísico, e ainda assim essencialmente distintos do Criador, cuja realidade está inteiramente além da nossa compreensão?

Nos próximos artigos desta série vamos abordar esta questão crucial da ontologia – a realidade essencial – dos Manifestantes de Deus. Só depois de avaliarmos a realidade destes Seres, poderemos compreender o método com o qual o Criador decidiu educar-nos. Da mesma forma, só compreendendo a natureza dos profetas poderemos alcançar alguma compreensão sobre a nossa própria natureza e propósito, na realização do plano de Deus para a iluminação espiritual da humanidade, que acabará por resultar no estabelecimento de uma comunidade global capaz de defender a paz e a justiça duradouras.


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Texto original: The Bab and Baha’u’llah: Turmoil and Epiphany (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em literatura inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader’s Guide to the Art of Baha’u’llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.



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