Porque é que uma Bahá’í vai à Missa de Natal


Por Zarrin Caldwell.

Durante estas férias de Natal, como na maioria das férias de Natal, a maioria das pessoas pensa mais em religião e na espiritualidade. Ocorreu-lhe algum pensamento espiritual?

Supostamente, há mais pessoas a ir à igreja no Natal do que em qualquer outra época do ano, incluindo cerca de 60% dos americanos, segundo uma fonte.

O meu marido é Católico e eu cresci numa família Bahá’í, mas gosto muitas vezes de ir com ele à Missa, na véspera do Natal. Seja qual for o local, adoro a oportunidade de mudar a atenção do materialismo aparentemente interminável para a herança espiritual mais profunda da humanidade, tantas vezes esquecida.


‘Abdu’l-Bahá
– filho e sucessor de Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í – demonstrou esta verdade frequentemente, participando em vários serviços religiosos em mesquitas, igrejas, sinagogas e templos ao longo da Sua vida. Num discurso que proferiu na igreja All Souls Christian, em Chicago, em 1912, Ele afirmou:


As religiões divinas foram fundadas com o propósito de unificar a humanidade e estabelecer a paz universal. Qualquer movimento que traga paz e concórdia à sociedade humana é verdadeiramente um movimento divino; qualquer reforma que faça com que as pessoas se reúnam sob o mesmo tabernáculo é certamente animada por motivos celestiais. Em todos os tempos e em todas as épocas, a religião tem sido um factor de consolidação dos corações dos homens e de união de credos diversos e divergentes. É o elemento de paz na religião que une a humanidade e promove a unidade. A guerra sempre foi causa de separação, de desunião e de discórdia.



Considerem como Jesus Cristo uniu os povos, seitas e denominações divergentes dos primeiros dias. É evidente que os fundamentos da religião pretendem ligar e unir; o seu propósito é a paz universal e eterna. Antes do tempo de Jesus Cristo, a Palavra de Deus unia tipos opostos e elementos opostos da sociedade humana; e desde o Seu aparecimento, todos os divinos Instrutores dos princípios primordiais da lei de Deus pretenderam este resultado universal.

Neste belo espírito, e num mundo onde a filiação religiosa formal tem vindo a diminuir, ainda fico fascinada pelo que considero a literatura de inspiração divina. Entre muitos outros, estudei livros sagrados e obras de santos católicos, filósofos romanos, sábios asiáticos, estudiosos islâmicos, místicos inspirados e as ricas e originais escrituras da Fé Bahá’í. A parte mais notável desta jornada inter-religiosa é a consistência das mensagens – e a frequência com que parecemos esquecer as instruções.

Aproximarmo-nos de Deus como o objectivo final das nossas vidas, independentemente de como se define essa entidade, está no centro de muitas dessas tradições; mas existem outras conclusões comuns. A maioria dos grandes profetas e outros guardiões da sabedoria do mundo, como gosto de chamá-los, dizem que somos seres espirituais que residem temporariamente num corpo humano. O nosso tempo aqui é semelhante a estar numa escola onde somos chamados a subjugar o nosso ego sempre presente, e a desenvolver a nossa natureza superior – não apenas para que possamos levar vidas mais ricas e com mais propósito neste reino humano, mas também para prepararmos as nossas almas para a próxima parte da jornada.

O filósofo grego Platão, nos diálogos atribuídos a Sócrates, afirma:


Que se anime o homem em relação à sua alma, que tendo repelido os prazeres e ornamentos do corpo como estranhos a ele… vestiu a sua alma não com um traje estranho, mas com as suas próprias joias da temperança, da justiça, da coragem e da verdade – e adornada com estas está pronta a partir na sua viagem.

Muitas tradições filosóficas e religiosas enfatizam constantemente a importância de desenvolver qualidades benéficas e não prejudiciais; é o fruto de uma longa e rica história em muitos textos sagrados sobre o desenvolvimento do carácter espiritual. As nossas almas progredirão tanto nesta vida quanto na próxima, dizem muitos educadores divinos, se procurarmos qualidades como compaixão (em vez da indiferença), autocontrole (em vez da raiva), generosidade (em vez da ganância), fidelidade (em vez da deslealdade), honra (em vez da desonra), altruísmo (em vez do egoísmo) e humildade (em vez do orgulho). Isto é apenas uma amostra, mas todos temos uma longa lista de virtudes potenciais que devemos considerar e adquirir – não apenas para o nosso próprio desenvolvimento, mas para evolução da vida da sociedade.

Gosto destas palavras da Bíblia sobre este assunto:


Por isso, esforcem-se por juntar à vossa fé a virtude; à virtude, o conhecimento; ao conhecimento, o domínio de si próprio; a esse domínio, a paciência; à paciência, o apego a Deus; ao apego a Deus, a dedicação fraterna, e à dedicação, o amor. (2Pe 1:5-7)

Num mundo que hoje parece muito mais cheio de ódio do que de amor, lembro-me também de algumas palavras sábias do Buda sobre este tema: “…pois não é pelo ódio que os ódios cessam em qualquer momento neste lugar, eles apenas cessam com não-ódio, esta verdade é certamente eterna.

Apesar de algumas orientações tão antigas, parecemos continuar a perder o sentido destes princípios fundamentais.

Veja-se, por exemplo, generosidade versus ganância. “As trevas da ganância e da inveja obscurecem o brilho da alma, assim como as nuvens obstruem a luz do sol”, dizem as Escrituras Bahá’ís. Estas palavras abordam a ganância ao nível do indivíduo, mas vão mais longe, e é fácil ver como a ganância se manifesta como corrupção e as suas muitas consequências terríveis no mundo. Receio que esta corrupção só vá piorar se não compreendermos os fundamentos morais sobre os quais se baseia qualquer civilização próspera.

Quando pensamos nisto, percebemos que há muito tempo que recebemos a opinião do Criador sobre esses assuntos. Zoroastro – um dos primeiros profetas a promover o monoteísmo – apresentou ensinamentos sobre a responsabilidade individual e a escolha de bons pensamentos e acções há cerca de 3000 anos. Ele ajudou a transformar uma sociedade que, em sua época, apresentava desordem social, decadência moral, guerra e corrupção. Ele disse: “A recompensa da felicidade é dada àqueles que servem a comunidade com as suas acções de boa mente e promovem o plano divino de sabedoria através da justiça comunitária”. Curiosamente, Zoroastro é pouco conhecido actualmente, mas muitos dos seus ensinamentos e histórias chegaram à Bíblia, e foram uma fonte de inspiração para os filósofos gregos e romanos posteriores.

Esta é apenas uma pequena parte da rica herança espiritual da humanidade. Em última análise, todos estão no seu próprio caminho espiritual e a vida aqui, em muitos aspectos, é um campo de testes. Os ensinamentos do Buda, por exemplo, concentram-se muito nas causas e na cessação do sofrimento. Ninguém disse que a viagem seria fácil, mas talvez fosse um pouco mais tranquila se tentássemos seguir as instruções divinas.

Uma versão diferente deste texto foi publicada na Interfaith Magazine e também pode ser encontrada no site de Zarrín Caldwell: www.thesoulsalons.com


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Texto original: Why a Baha’i Goes to Christmas Eve Mass (www.bahaiteachings.org)

Zarrín Caldwell é uma Bahá’í residente no Arizona (EUA). Tem trabalhado para diversas uma variedade de organizações internacionais sem fins lucrativos, em cargos de comunicação e gestão de programas. A sua experiência profissional centra-se nas organizações multilaterais, relações inter-religiosas, construção da paz e educação internacional. Tem viajado por muitos países e considera-se uma cidadã do mundo.



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