O meu percurso espiritual de Católico para Bahá’í


Por Rodney Richards.

Uma das minhas mais antigas memórias de infância, é estar numa sala de aula mal iluminada, deitado numa cama para dormir uma sesta. A freira no seu hábito preto dizia apenas: “Filhos, fechem os olhos e pensem no vosso Pai que está no céu”.

Sem barulho ou birras, todos nós, crianças do jardim de infância, obedecíamos.

Naqueles anos da infância, a minha ideia de Deus era provavelmente a de um homem idoso com um rosto gentil, mas severo, com vestes brancas, sentado em confortáveis nuvens brancas, conforme retratado nos livros religiosos católicos e pintado nos tectos das igrejas, entre santos barbudos e anjos com asas e halos dourados. Já naquela idade, vi várias distinções claras entre aquilo que era sagrado e aquilo que um ser humano normal poderia alcançar.

Lembro-me de vários momentos da minha educação católica, firmemente fortalecidas pela devoção persistente da minha mãe. Ela, mãe solteira, vivia comigo e com o meu irmão mais novo, obteve a anulação do casamento com o nosso pai mulherengo quando eu tinha quatro anos. Naquela década de 1950, todos os domingos de manhã ela vestia-nos para assistir à missa, recitada em latim pelo nosso pároco. Depois frequentei a escola primária católica St. Mary’s, no centro da cidade de Trenton, capital de Nova Jersey. No segundo ano, lembro-me de ter roubado duas moedas a um colega de turma; confessei e, embora fosse inteligente e me dissessem que era capaz, foi-me negada a passagem para o ano seguinte com as palavras “Uma criança desonesta não merece”.

Existem vários livros com memórias e histórias de crianças e das actividades na igreja; alguns são bem engraçados.

Mas, vendo bem, já na escola primária católica eu estava completamente saturado com os rituais da Igreja, e nada daquilo parecia interessante. Tinha a missa seis dias por semana, a confissão regular dos meus pecados e a comunhão, catequese, doutrina e confirmação pelo bispo, educação e serviço ao altar, grupo coral para os serviços nos Dia Santos, aulas com freiras sensatas, próximo da Quaresma e na Quarta-feira de Cinzas não comia carne às sextas-feiras, e muitas outras coisas. Aprendíamos histórias do Antigo Testamento e ouvámos os Evangelhos vezes sem conta.

Tudo significava uma coisa para mim: fazer o que era exigido ou esperado.

Mas eu não queria fazer o que era exigido ou esperado. Interna e externamente, o meu espírito insurgia-se. Aos oito ou nove anos, eu andava livremente de bicicleta pelas ruas e becos da cidade de Trenton, e muitas vezes chegava tarde a casa. Roubei a carteira da minha mãe, entrei no edifício de uma igreja à procura de dinheiro e fui apanhado; menti e insultei, andei à pancada e por vezes puxava de uma faca; e por duas vezes fui forçado a fazer coisas obscenas contra a minha vontade. O meu amigo era o valentão da nossa escola. Eu não queria saber de Deus, de Cristo, da Igreja, ou ser gentil ou prestável. Eu só me importava comigo mesmo.

Eu gostava de poder dizer alguma coisa, ou que alguém me mudasse e me ajudasse a encontrar o verdadeiro significado da religião, e a ser uma pessoa decente. Mas mesmo a mudança para outra comunidade e para uma escola pública, fazer novos amigos e trabalhar a meio-tempo na Woolworth’s pouca estabilidade me trouxe. Quatro anos de ensino secundário nos turbulentos anos 60 apenas tornaram as minhas drogas, álcool e excessos sexuais mais pronunciados, chegando a levar-me duas vezes à prisão. A única experiência preocupante foi quando me apresentei no Centro de Avaliação do Exército dos EUA em Newark, Nova Jersey, aos dezoito anos, para possível um recrutamento, e posterior envio para a guerra do Vietname. A designação 4-F que recebi mais tarde por causa de uma deficiência infantil salvou-me daquele inferno.

Naquela época, há muito que eu deixara as actividades católicas, e nem sequer pensava em Deus.

Mas eu procurava alguma coisa. Tornara-me menos selvagem, e queria mais sentido na minha vida. Estudar o Livro das Mutações (o I Ching) e o Taoísmo despertaram as minhas necessidades espirituais. Eu sentia-me preparado para a mudança. Nessa época eu conheci e apaixonei-me por uma estudante do ensino secundário que era criativa, enérgica, divertida e tinha uma cabeça firme e organizada.

Depois, em 1968, encontrei a Fé Bahá’í. Juntos, ela e os ensinamentos Bahá’ís eram o que eu precisava para me tornar uma pessoa melhor.

Devido a estas experiências, acredito que a vida é uma busca de significado e propósito, de desprendimento das coisas materiais e apego às coisas espirituais. Um dos muitos textos de Bahá’u’lláh que li, incluía estas palavras místicas do Seu Livro da Certeza:


Mas, ó meu irmão, quando um verdadeiro buscador decide dar o passo da busca no caminho que leva ao conhecimento do Ancião dos Dias, ele deve, antes de tudo, limpar e purificar o seu coração, que é o lugar da revelação dos profundos mistérios de Deus, da poeira obscura de todo o conhecimento adquirido e das alusões às personificações da fantasia satânica…



O buscador deve em todos os momentos colocar a sua confiança em Deus, renunciar aos povos da terra, desprender-se do mundo do pó e aderir Àquele que é o Senhor dos Senhores. Ele nunca deve procurar exaltar-se acima de qualquer pessoa, deve limpar da placa do seu coração todo o vestígio de orgulho e vanglória, deve apegar-se à paciência e à renúncia, manter silêncio e abster-se de conversas fúteis… (O Livro da Certeza, ¶213)



Quando o canal da alma humana estiver limpo de todos os entraves e apegos mundanos, perceberá infalivelmente o alento do Amado através de distâncias imensuráveis, e guiado pelo seu perfume, alcançará e entrará na Cidade da Certeza. Ali, ele discernirá as maravilhas da Sua sabedoria antiga, e perceberá todos os ensinamentos ocultos no sussurrar das folhas da Árvore que floresce nessa Cidade… (O Livro da Certeza, ¶217)

Eu diria que todos os crentes em Deus, de fé católica ou de qualquer fé, procuram a certeza de que estão no caminho certo ou verdadeiro, de que as suas almas são eternas e de que serão conhecidos pelas suas boas obras quando falecerem.

A palavra “católico”, com “c” minúsculo, significa abrangente, universal. Na minha busca, voltei-me para a Fé Bahá’í, mas não me afastei de Deus ou do seu filho santo, Jesus Cristo, dos seus ensinamentos ou do seu espírito. Das escrituras de Bahá’u’lláh, obtive apenas um apreço e um conhecimento mais profundos de Cristo e dos profetas, expandindo o meu coração e a minha mente para abraçar a verdade da Fonte Única, Deus.


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Texto original: My Spiritual Journey from Catholic to Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia), tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.



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