A sombra de um Rei Justo


Por David Langness.


O rei justo é a sombra de Deus na terra; todos deveriam abrigar-se à sombra da sua justiça e repousar à sombra do seu favor. Este não é o lugar para personalidades, ou censuras [dirigidas] especialmente contra alguns, separando-os dos outros; pois a sombra fala daquele que a projecta. (‘Abdu’l-Bahá, A Traveller’s Narrative, p. 65)

Quando eu era criança, o meu pai brincava comigo a um jogo chamado “A Sombra Sabe!” Acho que ele mesmo inventou o jogo, e foi buscar o nome a um antigo programa de rádio que ouvia quando era criança, e que eu ouvi apenas uma vez. A introdução dramática desse programa tornou-se famosa, aparentemente, quando começou a ser emitido na década de 1930. Foi assim, com uma voz profunda e assustadora: “Quem sabe que mal se esconde no coração dos homens? A Sombra sabe!

O nosso jogo – adequado para uma criança de três anos que ainda não havia desenvolvido o raciocínio lógico – envolvia muita correria, ficar escondido e rir. O jogo tinha um objetivo: fugir da própria sombra. Sim, eu sei: ninguém consegue fugir da própria sombra, mas era divertido tentar.

Então, com isso em mente, o que é que ‘Abdu’l-Bahá queria dizer na frase citada acima quando diz que “a sombra fala daquele que a projecta”?

Aparentemente, esta breve frase aconselha-nos a abster-nos de censurar ou criticar indevidamente governantes, reis e líderes políticos. ‘Abdu’l-Bahá parece sugerir que mencionar personalidades, ou culpar um líder em oposição a outro, é um exercício infrutífero. Em vez disso, recomenda que todos possamos ver claramente os efeitos da governação de um líder, tal como todos podemos ver a sombra de uma pessoa. O contorno dessa sombra, tal como descobri aos três anos de idade, segue-nos fielmente por todo o lado, reproduzindo constantemente o nosso contorno exacto no claro e no escuro. Ninguém pode desfazer-se da sua sombra.

No seu Última Vontade e Testamento, um dos textos mais importantes de ‘Abdu’l-Bahá, ele desenvolve esse conselho sobre as sombras, aconselhando-nos a tratar os nossos administradores públicos tal como trataríamos qualquer pessoa – com respeito e honra. Ele pede-nos que nos abstenhamos de caluniar os nossos líderes políticos, obedeçamos aos governos justos e nunca desejemos o mal àqueles que nos governam:


De acordo com o mandamento claro e sagrado de Deus, estamos proibidos de proferir calúnias, é-nos ordenado a demonstrar paz e amizade, somos exortados à rectidão de conduta, à sinceridade e à harmonia com todas as raças e povos do mundo. Devemos obedecer e desejar o bem aos governos do país, considerar a deslealdade para com um rei justo como uma deslealdade para com o próprio Deus, e desejar o mal ao governo como uma transgressão da Causa de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, The Will and Testament, p. 8)

Assim, talvez a sombra projectada por um líder nos diga tudo o que precisamos saber sobre a sua liderança. Se tivermos líderes amantes da paz, eles projectarão uma sombra pacífica e viveremos num país pacífico. Se tivermos líderes que aspiram ao seu próprio enriquecimento e progresso, a sombra que lançam será igualmente óbvia – reflectirá a corrupção nas suas almas e a corrupção na nação. Se tivermos líderes belicosos, as suas sombras violentas e mortíferas segui-los-ão por todo o lado. ‘Abdu’l-Bahá parece estar a dizer-nos que a sombra de um líder – os seus motivos mais íntimos – tornar-se-á sempre óbvia, mais cedo ou mais tarde. Podemos ver essas sombras simplesmente observando o que se segue às acções de um líder.

‘Abdu’l-Bahá também parece estar a dizer-nos para escolhermos cuidadosamente os nossos líderes, avaliando não só a sua reputação pública e a sua “imagem” cuidadosamente trabalhada, mas também considerando os resultados reais das suas políticas. Essas políticas são justas? Deveríamos fazer essa pergunta relativamente a cada uma dessas políticas e depois, no final das contas, decidir manter ou substituir esse líder.

A paz, a justiça e o respeito pelos direitos de todos – estes estão entre os critérios que devem fundamentar a nossa escolha de líderes, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís. Temos uma indicação sobre estas qualidades de liderança num breve excerto do elogio ao presidente americano Woodrow Wilson, escrita em 1919 por ‘Abdu’l-Bahá:


O Presidente da República, Dr. Wilson, está na realidade a servir o Reino de Deus, pois ele é incansável e luta dia e noite para que os direitos de todos os homens possam ser mantidos sãos e salvos, para que até mesmo as pequenas nações, tal como as grandes, possam habitar em paz e conforto, sob a proteção da Retidão e da Justiça. Este propósito é realmente elevado. Confio que a incomparável Providência ajudará e confirmará essas almas em todas as condições. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #71)

Woodrow Wilson

Naquela época da história, o presidente Wilson, um democrata, ajudou a mediar o acordo de Armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Após a publicação dos seus Quatorze Pontos para o estabelecimento de uma paz permanente, ele foi a Paris para promover a formação da Sociedade das Nações, a primeira tentativa mundial para criar um órgão governamental internacional. Líder progressista em muitos aspectos, Wilson apoiou o sufrágio feminino; defendeu a criação da Comissão Federal de Comércio para evitar a formação de monopólios; apoiou um salário mínimo nacional e subsídio de desemprego; ajudou a estabelecer a jornada de trabalho de oito horas mediando uma greve ferroviária nacional e resolvendo-a a favor do sindicato; e nomeou Louis Brandeis, o primeiro membro judeu do Supremo Tribunal.

Mas o Presidente Wilson também teve de apaziguar os políticos do Sul, apoiando as leis e políticas raciais segregacionistas, e dizendo aos soldados negros que protestavam que “a segregação não é uma humilhação, mas um benefício”. Wilson também, como presidente da Universidade de Princeton, recusou a admissão de estudantes negros.

Podemos ver, mesmo com base neste breve resumo, que o presidente americano há cem anos tinha uma mistura de luz e trevas nas suas políticas e opiniões. Apesar das trevas, os ensinamentos Bahá’ís homenageiam Woodrow Wilson pelos esforços que fez para estabelecer a paz mundial. Ao reconhecer e elogiar esse motivo principalmente espiritual, ‘Abdu’l-Bahá exemplificou adequadamente o princípio Bahá’í de “Nunca falar depreciativamente dos outros, mas elogiar sem distinção”. (The Promulgation of Universal Peace, p. 453)

Quem for a Washington, DC, pode visitar o túmulo do Presidente Wilson na Catedral Nacional – ele é o único presidente dos EUA sepultado no Distrito de Columbia. Ou se forem a Nova Jersey, ao campus da Universidade de Monmouth, façam uma paragem no Woodrow Wilson Hall, no local da “Casa Branca de verão” de Wilson em 1916.


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Texto original: The Shadow of a Just King (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.



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